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Mas será isso verdade? 

Vamos refletir a partir do ideograma chinês que significa gratidão. 

恩 (ON) = gratidão

Na língua japonesa, a palavra gratidão escreve-se com a mesma letra chinesa e dizemos “ON”. Esse ideograma é formado por duas partes: a de cima, que significa “causa”, e a de baixo, que refere se neste caso à mente ou consciência. 

恩 (ON, gratidão) = 

因 (IN, causa) + 心 (KOKORO, mente ou consciência)

Para tudo nesta vida há uma causa, sem exceção. 

Se um dia nascemos e hoje estamos vivos, com certeza isso não é por acaso, e vários fatores contribuíram para que isso acontecesse. Ou seja, houve uma causa.

Esses fatores podem ser pessoas ou mesmo a própria natureza. Inicialmente, sem o ar, não conseguiríamos viver. Mas, também, a falta do sol, da água, da terra, das plantas e vegetais, impediria o nosso crescimento e sobrevivência.

A filosofia budista ensina que devemos sentir gratidão por tudo isso. 

Temos a tendência de pensar que crescemos e desenvolvemo-nos, que as nossas conquistas são apenas méritos próprios, mas basta abrirmos um pouco nosso horizonte e olharmos ao nosso redor para percebermos que não é bem assim.

Muitas pessoas que estão à nossa volta contribuíram e contribuem para sermos o que somos hoje. 

Sem os médicos, talvez hoje não estaríamos saudáveis. Ao longo de vários anos tivemos e temos o apoio da nossa família e a orientação dos professores e mestres. Sem falar nos amigos e pessoas que nos ajudaram em nossa jornada até agora. 

Mesmo os animais sentem gratidão. Há um conto japonês escrito pelo Prof. Kentetsu Takamori (autor do livro “Porque vivemos”, Editora Nascente, 2019) que ilustra muito bem esse facto. 

Quando trabalhava na horta, um camponês encontrou um ovo. Pensou que, se o deixasse ali, podia ser devorado por um cão ou uma ave. Levou-o para casa e pô-lo a chocar. Durante o dia, deixava-o à luz do sol e à noite dormia com ele para o manter aquecido.

Dias depois, o ovo chocou e dele nasceu uma pequena cobra.

“Ninguém gosta de cobras. Dizem que são vingativas, mas, se eu criar esta com amor e carinho, tenho a certeza de que ela me vai entender”, pensou.

E assim o camponês resolveu criar a cobra.

Fez um ninho, escolheu uma ração macia e criou a cobra com todos os cuidados e mimos. A cobra foi crescendo. Aos poucos, começou a entender o que o camponês lhe dizia. Fazia tudo o que ele mandava.

Depois de algum tempo já reconhecia os passos do dono e ficava à sua espera na porta.

Certa noite, o camponês jantou com os amigos e voltou para casa completamente bêbedo. Assim que entrou, sentiu uma coisa a tocar-lhe na perna e uma dor aguda percorreu todo o seu corpo. Viu que era a cobra.

“Ingrata!”, gritou. “Cuidei de ti mesmo quando não passavas de um ovo. Como ousas morder-me?!”

A explosão de raiva passou logo e o camponês murmurou: “pensando bem, acho que a culpa foi minha. Como sempre, estavas à minha espera à porta e eu, bêbedo, esqueci-me disso e devo-te ter pisado com toda a força. Assustada com a dor, mordeste a perna de quem te pisou. Fizeste apenas o que era natural. Perdoa-me.”

Então, o camponês curou a ferida e foi dormir.

Na manhã seguinte, como habitualmente, foi ao ninho. Nem sinal da cobra. Procurou-a pela casa toda. Estava no lugar onde tinha mordido o camponês. Morta. Mordera-se a si mesma e morrera.

“Quem sente gratidão pelos favores que recebe alcança o êxito. Quem esquece os favores recebidos perde a confiança. Quem retribui os favores com injúrias acaba em desgraça” (Buda Shakyamuni)

O que nos impede de sentir gratidão pelas coisas e pessoas é o sentimento de que tudo é obvio e natural.

É natural que os pais cuidem, sustentem e eduquem os filhos. Os pais têm o dever moral e legal de criar os filhos. Isso é um senso comum garantido até mesmo pela legislação dos países e pelo UNICEF, a partir dos direitos das crianças e adolescentes.

Mas, do ponto de vista do filho, não é obvio receber tudo dos pais e poder ter uma vida sem privações. Por essa razão, os filhos precisam reconhecer os favores recebidos até hoje, sentir gratidão pelos pais e esforçar-se para retribuir essa gratidão.

A pessoa que não sente gratidão não é capaz de reconhecer os favores recebidos e, por isso, não irá agradecer as pessoas. Por consequência, será vista como alguém arrogante e ingrata. Além disso, por não reconhecer a ajuda alheia, interiormente estará sempre com a mente cheia de insatisfações, queixas, rancor e ódio. Como será possível uma pessoa com esses sentimentos venenosos sentir-se feliz?

Uma pessoa que vive sem gratidão planta diariamente más sementes de ódio, rancor e lamentações. Como consequência só poderá colher infelicidade, caindo, pelas próprias ações, em um ciclo vicioso de sofrimento. 

Ao invés disso, por que não redirecionar a nossa energia em ressaltar os pontos positivos das pessoas, reconhecer os favores recebidos, esforçar-se todos os dias para sentir e retribuir a gratidão?

Parece difícil? Se sim, aqui vai uma dica: vamos nos esforçar só por hoje para sentir e retribuir a gratidão. Pode parecer muito pouco, mas isso será, com certeza, o primeiro passo para grandes e felizes mudanças.

Mauro M. Nakamura
Professor de filosofia budista, autor, editor de conteúdo e presidente da ITIMAN. Diretor internacional da Ichimannendo Publishing Co. Ltd. - Tóquio, Japão.

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