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Ikyu era um menino muito perspicaz. Tinha sete ou oito anos. Foi até ao quarto do mestre, que estava ausente, e ali encontrou o seu colega veterano que chorava desconsoladamente. 

«Por que razão estás a chorar?», perguntou Ikyu. 

«Eu queria ver de perto esta tigela que foi presente do xogum Ashikaga e que o mestre tanto elogiava. Como ele saiu, achei que era a minha oportunidade. Tirei a tigela da caixa, pus-me a admirá-la e de repente ela caiu e partiu-se.» 

O colega chorava desesperadamente, tentando colar a tigela que se partira ao meio. 

«O quê? Estás a chorar por causa disso? É um facto grave, sim, mas choramingar não resolve nada. És aprendiz do budismo zen. É uma vergonha chorar por causa de uma tigela partida. Nem pelas coisas mais graves se deve chorar. Não te esqueças da honra do aprendiz zen. Chorar não resolve nada. Podes parar.»

«Eu sei disso, Ikyu. Sei que mesmo a chorar não há solução. Por isso não consigo parar de chorar. Põe-te no meu lugar!» 

«Como és medroso… Mas, mesmo assim, és meu amigo, como se fosses meu irmão. Faz de conta que fui eu quem partiu a tigela. E então não precisas mais de chorar.» 

«Tens a certeza, Ikyu? Eu ficaria tão grato… És sempre tão esperto. Será que consegues enganar o mestre? Conto contigo, Ikyu. Dar-te-ei a minha parte do bolo que trouxerem da próxima cerimónia budista.» 

Diante da súplica do colega e da promessa de ganhar o bolo que ele nem sabia se receberia, Ikyu assumiu a responsabilidade de ter partido a tigela. Guardou-a de qualquer maneira, correu para o salão e, como sempre, entregou-se às suas brincadeiras. 

À tardinha, o mestre voltou. Os dois foram ao seu encontro e, lado a lado, cumprimentaram-no. 

«Olá, Ikyu. A fazer travessuras como sempre?», perguntou o mestre, bem-humorado. 

«Nem pensar, mestre. Hoje nem tive tempo para fazer travessuras. Fiquei o dia todo a meditar, tentando resolver um enigma.» 

«O quê? Tu a fazeres meditação?! É um pouco suspeito. Aposto que estavas a dormir.» 

«Não estava, não, mestre. Fiquei concentrado na meditação, mas o enigma é tão difícil que ainda não o consegui resolver.» 

«Então, diz-me lá que questão difícil é essa?» 

«É o enigma da vida e da morte. Fiquei a pensar: será que todos temos de morrer ou será que existe alguém imortal?» 

«Hummm… O enigma da vida e da morte… E então, Ikyu, conseguiste resolver o enigma?» 

«Pois é… Ainda não.» 

«Não conseguiste? És muito esperto, mas não passas de uma criança. Ouve bem, quero que fique bem claro de uma vez por todas: “quem vive de certeza morrerá”. Assim ensinou Buda Sakyamuni. Ninguém consegue escapar à morte, nem mesmo o herói mais valente.» 

«Verdade? A morte é tão terrível assim? Muito obrigado, agora um dos enigmas está resolvido.» 

«O quê? Há mais alguma coisa que não saibas, Ikyu?» 

«Há, sim. É o enigma da formação e da destruição dos objetos. Será que os objetos deste mundo se partem sempre ou há coisas que nunca se quebram?» 

«Hummm… És um menino inteligente, mas ainda uma criança. Ficaste a pensar numa coisa tão banal? Vou explicar. Tudo o que existe neste mundo vai um dia desfazer-se. Presta atenção. Buda Sakyamuni ensinou-nos que este é o princípio da formação e da destruição.» 

«Mas, mestre…. Mesmo se tomarmos todo o cuidado com um objeto muito precioso, ele pode partir-se?» 

«Exatamente. Mesmo sendo algo muito precioso, quando chega o momento, não há como evitar que se parta.» 

«E é terrível quando chega esse momento, não é?» 

«Muito terrível. Mesmo a força de Buda não consegue evitar que isso aconteça.» 

«Agora percebo muito bem todos os enigmas que andei a tentar resolver o dia inteiro. Quem nasce de certeza morrerá. Tudo o que tem forma um dia vai partir-se. Esta é a verdade do universo, não é?» 

«Certíssimo. São princípios que nunca falham.» 

«Percebi. Quem alcançou a iluminação não se desespera nem se lamenta quando morre alguém muito querido. Quando um objeto muito precioso se parte, não fica furioso nem se zanga com quem o quebrou. Em vez disso, consegue ver com clareza que simplesmente chegou a altura de o objeto se partir. É a isto que chamamos “iluminação”, não é?» 

«Exatamente.» 

«Acho que ninguém é mais feliz do que nós: os discípulos do mestre que alcançou a iluminação.» 

«Olha, não vale a pena bajulares-me, porque não tenho nada para te dar.» 

«Não se preocupe, mestre. Não é preciso dar-me nada. Eu é que tenho uma coisa para si. Infelizmente, como pode ver, chegou a hora de esta tigela se partir.» 

Com toda a compostura, Ikyu colocou a tigela partida à frente do mestre. 

O mestre ficou chocado. Contudo, diante do que acabara de ensinar, não se podia zangar. Só conseguiu balbuciar: «já chegou a hora de ela se partir?» 

(História do livro “Sementes do Coração”, de Kentetsu Takamori)

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Mauro Nakamura
Professor de filosofia budista, autor, editor de conteúdo e presidente da ITIMAN. Diretor internacional da Ichimannendo Publishing Co. Ltd. - Tóquio, Japão.

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