Somos todos vítimas do desejo

Somos todos vítimas do desejo

Dentre os inúmeros sentimentos humanos, o desejo é, com certeza, um dos mais intensos. Ele está presente todos os dias e, praticamente, a todo momento. Desde quando acordamos, ou melhor, mesmo antes de acordarmos ele se manifesta a partir do sono, da vontade de querer dormir e descansar  um pouco mais.

Mas o nosso desejo não para por aí. Diariamente sentimos o desejo de comer, de obter dinheiro, de ter relacionamentos amorosos e de ser elogiado e bem visto pelas pessoas. Em quaisquer desses casos, quando não possuímos, desejamos ter. Se já temos, queremos mais ainda.  Essa é a essência do desejo humano.

Quem nunca teve carro, se satisfaz com qualquer popular em bom estado. Mas isso é algo momentâneo. Com o passar do tempo o desejo por um carro melhor torna-se cada vez mais forte, fazendo o indivíduo a trabalhar para consegui-lo, e assim por diante.

Aliás, essa é a mola propulsora que fez, faz e sempre fará com que a humanidade avance, buscando sempre uma vida mais confortável e feliz. Não há nada de errado nisso, podemos pensar.

Mas se observarmos essa questão por um outro ângulo, perceberemos que existe uma grande contradição: o ser humano, independente de países ou época, tenta satisfazer um desejo ilimitado com uma vida limitada. Afinal, não viveremos eternamente. Por mais que a esperança de vida de portuguesas e portugueses tenha chegado a uma média de 80,78 anos, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), ainda assim ela continua sendo limitada.

Será possível ser realmente feliz procurando satisfazer um desejo ilimitado com uma vida limitada? 

Um conto muito interessante de Liev Tolstói (1828-1910), famoso escritor russo, discute essa questão e ensina que “a cobiça mata a todos”, segundo escreve o Prof. Kentetsu Takamori no livro Um caminho de flores (Editora Satry, 2012).

Quanto basta?
Há um conto de Liev Tolstói (1828-1910) sobre um camponês que ambicionava muitas terras e ouviu falar de um país tão vasto que, para possuir terras lá, bastava pedir.
Ele foi até esse país e descobriu que era verdade. Os habitantes e o governante, todos lhe deram as boas-vindas.
O governante disse ao camponês que ele podia tomar posse de quantas terras quisesse: tantas quanto pudesse percorrer a pé num único dia.
“Só existe uma condição”, acrescentou ele. “O senhor tem de partir ao nascer do sol e voltar ao ponto de partida antes do pôr do sol. Comece onde quiser e vá marcando os cantos. Percorra a distância que quiser, mas volte a tempo, senão não ganhará nada”.
Naquela noite, o camponês ficou acordado, entusiasmado com a ideia das vastas terras à sua espera. De manhã, ele partiu assim que o dia começou a nascer e logo encontrou um ponto de partida para sua terra. Aos poucos, foi acelerando o passo.
Depois de avançar muitos quilómetros, marcou outro canto.
Por fim, rompeu numa corrida, impulsionado pela ideia de que, quanto mais depressa fosse, mais terras possuiria.
Chegou a um ponto que julgou um local razoável para voltar, mas seguiu em frente, instigado pela ambição. Por fim, surpreso por ver o sol já muito alto, marcou o último canto e se pôs a correr de volta ao ponto de partida.
Mal teve tempo de almoçar. No meio da tarde, estava exausto, porém jogou fora o paletó e as botas e continuou a corrida. O céu estava vermelho com o pôr do sol. Seus pés estavam machucados, ensanguentados, e seu coração, a ponto de explodir. No entanto, se tombasse agora, todo o esforço teria sido em vão. Correu o mais que pôde, com os olhos no ponto de chegada.
Seu esforço foi recompensado, porque ele chegou de volta bem a tempo. Mas infelizmente tombou morto como uma pedra. O governante mandou seu criado fazer uma cova e enterrá-lo. No fim, toda a terra que esse camponês conseguiu foi uma campa de dois metros por trinta centímetros.
O camponês de Tolstói não é o único ser ambicioso. A cobiça mata a todos.

Kentetsu Takamori

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